sábado, 19 de setembro de 2015

3924) Traduzir em verso (20.9.2015)



Traduzir um romance é pesado, mas às vezes é mais fácil do que traduzir um poema de duas páginas. O que mais influi na tradução não é a mera quantidade de palavras, é a quantidade de regras ou de convenções que o original explora e que a tradução precisa seguir também. Suponhamos uma forma poética bem simples e conhecida: o soneto. Número fixo de linhas, número tradicional de sílabas por linha (dez, doze), questões de prosódia, de acentuação, de ritmo, de desenho melódico da frase. Tudo isso sem falar no lado significante do verso: aquilo que ele diz, seu chamado conteúdo manifesto.

Não é conteúdo, é forma também. O fato de ser um soneto sobre um vagalume ou um haicai sobre uma rã estão embutidos na forma, fazem parte imagística daquilo, tanto quanto os sons de que o poema é feito. É interessante que a maioria dos leitores percebe em primeiríssimo lugar o chamado “conteúdo” e só em alguns casos atenta para os efeitos sonoros, que o tradutor tanto se esforçou para emular.

Rima, métrica, cadência, variação sonora, conteúdo, algo vai ter que escapar por entre os dedos do tradutor na hora de compor um equivalente. Eu acho quixotescas, por exemplo, as tentativas de traduzir um poema em inglês usando em português a mesma contagem de sílabas do original. Algumas línguas