sexta-feira, 8 de agosto de 2014

3572) "Clara dos Anjos" (8.8.2014)



O romance é, muitas vezes, um círculo enxergado e analisado por um ponto externo a ele, que é o autor. O autor que tem intenções sociais, históricas, psicológicas, etc., prepara seu enredo como um laboratorista prepara uma lâmina a ser submetida ao microscópio. Ele tem uma opinião formada sobre o mundo e escreve o romance para ilustrar sua tese, porque admite que a tese sem as ilustrações ficaria chata demais. Ele narra a história, e opina sobre o que está acontecendo. Conta o que um personagem fez, e logo se detém para explicar as motivações do personagem. Ação e teoria se alternam e se confundem no romance realista, de tese.

Clara dos Anjos (1948, póstumo) de Lima Barreto conta a história de uma mulatinha ingênua que se deixa seduzir por um mau-caráter, um pilantra, aquilo que em Campina se chamava “colecionador de cabaços”. A desgraça se anuncia nas primeiras páginas e se consuma nas últimas. Lima Barreto descreve e comenta seus personagens o tempo inteiro. As oficinas literárias nos dizem: “show, don’t tell”, “mostre em vez de dizer”. (Há teóricos que, com bastante fundamento, combatem a ditadura dessa norma, como W