quarta-feira, 12 de março de 2014

3444) Nosso racismo (12.3.2014)



No balanço de vida que faz em Minha Formação (1900) Joaquim Nabuco registra os sentimentos contraditórios e sofridos de abolicionistas brasileiros que eram de famílias escravocratas.  Ter escravos não causava a essas famílias mais dramas de consciência do que causa, às de hoje, o fato de ter cozinheiras e babás. Fazia parte do tecido social, e se estava funcionando a contento, quem ia mexer?  Quem se dispôs a mexer foram os abolicionistas, beneficiários do sistema, mas dispostos a sacrificar-se junto com ele. E ainda tiveram que ouvir as piadinhas inevitáveis: “Como assim, seu pai tinha 300 escravos e você quer acabar com a escravidão?...”

No famoso capítulo “Massangana” desse livro, Nabuco reconstitui momentos de sua infância, lembra sua Madrinha cercada de escravos, e a noite da morte dela, com ele ainda menino. Lembra o desespero dos escravos que não sabiam o que seria feito deles a partir daí: “A mudança de senhor era o que havia mais terrível na escravidão, sobretudo se se devia passar do poder nominal de uma velha santa, que não era senão a enfermeira dos seus escravos, para as mãos de um