domingo, 8 de setembro de 2013

3286) As fases de Saturnino (8.9.2013)




Na infância, Saturnino teve um momento em que, onde estivesse, agia como uma antena capaz de dissipar tanto a formação de trovoadas quanto a de discussões. Fazendo uma pergunta a um, interrompendo outros, pedindo algo a um terceiro. Bastava-lhe isso para controlar a quantidade de luz que vinha do céu e (uma frase que ele leu uma vez numa revista) “o clamor furioso dos elementos”. Ou seja, para evitar que festas degenerassem em confrontos, discussões regredissem a sopapos.

Depois Saturnino teve um período em que desacertou o passo com o planeta. O emprego que arranjou na oficina gráfica de um jornal (daqui a pouco vai ser preciso explicar o que é isso) exigia que ele pegasse à meia-noite e largasse às oito da manhã, com meia hora para almoço. Seu dia passou a ser assim: acordar, ver o por-do-sol, a noite, a madrugada, o nascer-do-sol, ir pra casa, sono até o próximo entardecer. Ele fazia cálculos permanentes, como um turista no estrangeiro convertendo moedas em cada transação que faz ou que planeja.