domingo, 5 de maio de 2013

3178) As marcas do morto (5.5.2013)





Quando meu tio Fabriciano morreu, não chorei nem fiz drama, mas talvez eu tenha sentido sua morte mais do que a viúva e os dois filhos, para quem o velho (inválido, introvertido) era um entrave, uma sangria financeira. Eu era o único parente que o visitava, o único que era bem aceito. Recebi com uma surpresa formal a notícia de que ele tinha deixado para mim a estante de livros. Lá, ninguém tinha interesse por eles, e meu tio me fizera aquela última gentileza. Ademais, eram poucos, não mais de duzentos.

Folhear livros de um ausente é uma forma de seguir suas pegadas pelo mundo não-linear e ilimitado das idéias. Livros lidos, relidos, manuseados ao longo da vida. Trechos sublinhados, parágrafos inteiros circundados por uma linha firme e intencional, traços ondeados por baixo de termos duvidosos ou de erros de imprensa. Pequenos comentários em forma de pontos de exclamação, interrogação; asteriscos e setas puxando correções ou esclarecimentos.

Quando comecei a examinar seus livros preferidos uma e