quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

3109) Bandeira inconsciente (14.2.2013)




(Manuel Bandeira)


No seu livro de memórias literárias Itinerário de Pasárgada (Global, 2012) Manuel Bandeira comenta os poemas que fez dormindo. Pode parecer estranho a quem não é poeta, mas se um sujeito que anda de bicicleta pode sonhar que está bicicletando, o que há de estranho em um poeta sonhar que está poetando? Ele cita, p. ex., o poema “Palinódia” (no livro Libertinagem, 1930). Diz que sonhou com uns versos, e ao acordar conseguiu lembrar estes: “Não és prima só / senão prima de prima / prima-dona de prima / - Primeva”. E um pouco dos versos iniciais: “Quem te chamara prima / arruinaria em mim o conceito / de teogonias velhíssimas / todavia viscerais”.

E diz: “Para completar o poema, tive que inventar a segunda estrofe, que não saiu hermética, como a primeira e a terceira. Achei que seria melhor isso do que fingir obscuridade, coisa que jamais pratiquei. É verdade que tentei o ditado do subconsciente, segundo a receita ‘surréaliste’ (fracassei, como sempre)”. É bom ouvir isso de Bandeira