sábado, 8 de setembro de 2012

2971) O tradutor e o estilo (8.9.2012)



(Sarolta Ban)


Uma obra literária consta basicamente de enredo e estilo. A história que é contada e as palavras escolhidas para contar essa história. (Sim, sei que tem muito mais coisas, mas bora em frente.) Tem gente boa de enredo e que escreve apenas mais-ou-menos, e tem gente que escreve super bem mas só imagina histórias banais. A grande e a pequena literatura estão cheias de exemplos.

Essa divisão de tarefas mentais explica, parcialmente, a existência de grandes tradutores. Tem gente que diz que o tradutor é um escritor frustrado.  Não vejo bem assim. Há mil influências pessoais e variáveis de vida que conduzem um indivíduo a essa profissão quase mediúnica, mas eu diria que muitos tradutores são pessoas que são refinadas em estilo mas não têm (ou não tentam ter) capacidade fabulatória, capacidade para inventar histórias, imaginar personagens a partir do zero, produzir peripécias. Escritores assim muitas vezes tornam-se tradutores, porque na tradução é proibido mexer no enredo, mas é preciso saber reproduzir inúmeros estilos.