segunda-feira, 9 de julho de 2012

2918) "Memorial de Aires" (9.7.2012)








É o que chamam de “o romance crepuscular de Machado”.  A viuvez do protagonista deste romance é a mesma do escritor, a viuvez sem filhos, que aliás é um dos temas centrais do livro, tanto quanto o amor entre dois jovens que (a julgar pelo narrador) parecem ter sido feitos um para o outro.  Reli agora esse livro, se é que o li todo aos vinte e poucos anos.  Dele só me lembrava que nele não acontece nada.  Aqueles chás contemplativos de fim de tarde entre uma porção de gente com cabelos brancos e roupas pretas européias.  O mundo descrito por um introspectivo. E os personagens realistas de Machado mantêm pelo menos um elo em comum com os personagens de folhetim: parecem amarrados a um destino de ferro.  Os personagens do melodrama eram pessoas desesperadas que veem a vida ser destruída por forças que elas não conseguem sequer imaginar; os personagens realistas veem sua vida destruídas por eles mesmos.  Profetizam, contemplam, descrevem, choram, celebram, rememoram a própria destruição.  Mas não a evitam.  Estava escrito.

A expressão “estava escrito” sugere a imagem de algo gravado com cinzel no mármore ou escrito a laser no metal.  Comparada à palavra falada, a palavra esc