sábado, 24 de março de 2012

2826) Primeira pessoa (24.3.2012)



(René Magritte, La Reproduction Interdite)

Alan Garner conta que passou por uma tremenda crise pessoal quando supervisionava a filmagem do seu romance The Owl Service. Todo dia de filmagem ele sofria tremores, suores frios, acessos de vômito. Foi a um terapeuta e narrou seu drama. O terapeuta perguntou-lhe se o livro original estava escrito na terceira pessoa e no tempo passado, ou se era na primeira pessoa e no tempo presente. Garner disse que era na terceira, e no passado. O analista lembrou-lhe que o filme – qualquer filme – se passa no presente (a ação, mesmo quando em “flash back”, tem a imediaticidade de qualquer ação vivida). E que sendo um livro autobiográfico era insuportável para ele reviver, no presente, aquelas situações. Não posso botar minha mão no fogo pelo diagnóstico, mas o relato de Garner, em Science Fiction at Large (1976), afirma: “Ele foi direto ao centro da minha dor, e me absolveu dela”.

Isto dá uma medida do quanto (para alguns autores, não para todos – é bom que fique bem claro) o ato de escrever envolve catarse, libertação, descarrego. Muita gente diz que escreve para poder lidar com seus “demônios” e “fantasmas”. Por que recorrem a essas imagens para exprimir o que acontece dentro de suas cabeças? No caso desses autores (não de todos, insisto) existe algo incomodando, e escrever é uma maneira de ficar sabendo o que é e de dar-lhe um fim. Todo mundo conhece a metáfora do grão de areia