sexta-feira, 10 de junho de 2011

2579) O final onírico (10.6.2011)



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Um subgênero interessante do conto fantástico são as histórias de final onírico. Numa narrativa protocolarmente realista começam a acontecer coisas estranhas, impossíveis. A narrativa avança, e quando chega ao clímax, nas últimas linhas, o autor diz: “Pois tudo aquilo tinha sido um sonho!”. Isto se tornou um clichê tão reiterativo que a enorme maioria dos manuais literários do tipo Como Escrever um Conto risca do mapa essa possibilidade, logo de cara: “Não faça isto! Todo mundo já fez! Ninguém aguenta mais!”.

Às vezes é um sonho propriamente dito, porque o protagonista adormeceu na poltrona. Outras vezes é uma alucinação provocada pela bebida ou alguma outra droga. Outras vezes uma história contada por um narrador pouco confiável (“Um esqueleto”, de Machado de Assis). Ou um estado de devaneio momentâneo, estado alterado de consciência que faz o personagem “viver” mentalmente uma situação surreal, mesmo desperto (“A chinela turca” de Machado de Assis). Ou então um delírio criativo de um escritor que confunde a realidade com as visões que registra no papel (“Demônios”, de Aluísio Azevedo). Mas o desfecho obedece à mesma mecânica: “não, caro leitor, nada disto aconteceu, era tudo uma ilusão”.