sábado, 12 de fevereiro de 2011

2478) Drummond: o poema ready-made (12.2.2011)



(Marcel Duchamp, foto de Julian Wasser)


O poema mais polêmico do livro de estréia de Carlos Drummond, Alguma Poesia, foi o famoso “No meio do caminho”, o qual produziu respostas tão numerosas e variadas na imprensa que o próprio Drummond, anos depois, se deu o trabalho de coletar todas elas num livro hoje raro (Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema, Editora do Autor, 1967) . É bem verdade que a repetição monocórdia das mesmas frases (“No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho...”) desconcerta e irrita os leitores de sonetos parnasianos; mas quem tiver boa vontade deve reconhecer que o poema descreve uma situação de perplexidade existencial e tenta reproduzi-la através dessas repetições. O leitor pode até dizer que aquilo “não tem poesia”, como muitos disseram; mas ele deve admitir que existe ali um mínimo de presença autoral, existe a intenção de dizer algo com os recursos da literatura.

Passemos agora a outro poema do mesmo livro, intitulado “Sinal de Apito”. Diz ele: “Um silvo breve: Atenção, siga / Dois silvos breves: Pare. / Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. / Um silvo longo: Diminua a marcha. / Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. / (A esse sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente)”. E pronto. Tá aí o poema! Oitenta anos depois ainda não entendo como este pequeno fragmento dadaísta deixou impassíveis sujeitos como Gondin da Fonseca e Oscar Mendes, que espernearam bastante d