terça-feira, 19 de outubro de 2010

2377) O Ulisses espanhol (19.10.2010)



O Ulisses de James Joyce é aquilo que os críticos chamam de “um marco do Modernismo literário”. Nesta série de artigos estou comentando alguns livros que o norte-americano Joshua Cohen considera os seus equivalentes em outras literaturas. Ao indicar o Ulisses espanhol, surge uma situação curiosa: o livro escolhido por Cohen é Larva, de Julián Rios, de 1983. Ora, isto é mais de meio século após o livro de Joyce. O Modernismo é considerado um momento típico das primeiras décadas do século; será que somente nos anos 1980 a Espanha tomou conhecimento disto? Em parte, é possível. Desde a Guerra Civil nos anos 1930 a Espanha mergulhou na ditadura franquista que manteve o país num clima cultural fortemente hostil a manifestações de modernidade. Talvez um concorrente espanhol possível para o livro de Rios fosse o romance de Felipe Alfau Locos: a Comedy of Gestures, de 1928 (um romance de contos interligados, muito elogiado pela crítica), mas este foi escrito em inglês, e publicado nos EUA em 1936.

Em todo caso, Cohen escolheu o livro de Rios, e justifica assim esta escolha: “Talvez seja mais adequado considerá-lo o Finnegans Wake espanhol. A reescritura do mito de Don Juan feita por Julián Rios é acima de tudo um romance com a linguagem. Milalias, vestido de Don Juan, vai em busca de Babelle, vestida de Bela Adormecida, pelo meio de um baile à fantasia, numa mansão decadente em Londres. Os comentários sobre as identidades dos convivas mascarados acabam dando lugar à crítica sobre o poder de mascaramento das palavras – o modo como elas eclipsam significados mais antigos por trás de seu uso cotidiano. A façanha verbal de