domingo, 27 de junho de 2010

2199) Três histórias de fãs (26.3.2010)



A primeira história diz respeito a Spider Robinson, norte-americano, autor de histórias de ficção científica ambientadas num bar chamado Callahan’s, nome do seu proprietário. É um bar frequentado por alienígenas, viajantes no Tempo, etc., e ali se contam histórias divertidas. Robinson conta que certa vez estava com a esposa numa convenção de FC, e um grupo de fãs os convidou para jantar. Como estavam sem um centavo, aceitaram. Entraram num carro. Rumaram para o subúrbio, pegaram a estrada. O tempo passando, e tome estrada. Robinson e a mulher impacientes; e os fãs piscando uns para os outros e dando risadas. Uma hora e meia depois, pararam num restaurante, chamado, é claro, “Callahan’s”. Diz Robinson que não apenas a comida era horrível, mas descobriram que os fãs também não tinham grana para pagar o jantar.

Um cantor profissional me contou que chegou na cidade onde ia fazer um show à noite, e no aeroporto foi recebido por um sujeito que disse ser da produção local, encarregado de levá-lo para o hotel. Ele guardou a bagagem e o violão no carro do sujeito, e os dois seguiram. No meio do caminho o cara perguntou se o artista se incomodava de passar antes num local onde ele precisava pegar alguma coisa. “Tudo bem”, disse ele. Daí a pouco desceram numa casa onde estava rolando o maior churrasco, e o motorista anunciou: “Aqui está ele!”. O cantor teve que descer, sentar, fingir que bebia, até conseguir ligar para o verdadeiro produtor local ir buscá-lo; mas antes teve que pegar o violão e cantar algum dos seus grandes sucessos.

Affonso Romano de Sant’Anna narra o episódio ocorrido com Michel Foucault, em sua vinda ao Rio de Janeiro em 1973. Foucault veio fazer conferências na PUC-RJ, com cobrança de ingresso. No primeiro dia, ele e Affonso foram abordados por estudantes de filosofia que se queixaram de não poder comprar ingresso. O filósofo se dispôs a falar de graça para eles em outro horário. Depois, contou a Affonso que os estudantes o levaram para uma cobertura em Ipanema, onde ficou bastante claro que eram muito mais bem-de-vida que o próprio filósofo.

Nem todo fã apronta situações desse tipo, é claro. Mas acontece tanto que dá o que pensar nessa relação meio canibalesca que o fã mantém com seu ídolo. Os jovens leitores que levaram Spider Robinson para aquela roubada estavam querendo não só homenageá-lo, mas querendo que ele achasse graça na piadinha deles. O pessoal do churrasco e os ouvintes de Foucault certamente eram admiradores sinceros de suas vítimas (não aprontariam aquilo com qualquer um), mas narcisistas, acima de tudo. Fizeram aquilo para sair dizendo coisas como “Fulano cantou no meu churrasco”, “Foucault esteve lá em casa semana passada...” O fã é capaz de extremos de altruísmo e de extremos de egoísmo, porque existe no seu Ego uma fome voraz que só o ídolo sacia. Quanto mais importante a gente se torna para um fã, mais cuidado precisa ter com ele.

2 comentários:

Anônimo disse...

Parte 1

Coisas para se parafrasear:

"O fã é capaz de extremos de altruísmo e de extremos de egoísmo, porque existe no seu Ego uma fome voraz que só o ídolo sacia. Quanto mais importante a gente se torna para um fã, mais cuidado precisa-se ter com ele."

Paráfrases friáveis:

"Quanto mais importante VOCÊ(1*) se torna para um fã, mais cuidados com gente como a ti é preciso ter"

" O ídolo é capaz de extremos de vampirismo ideológico e 'egocentrismo exacerbado', porque existe no seu ethos íntimo e nos "pseudos" um apetite malsofrido que só o fã pode lhes prover e socorrer."

" Quem acha que é um ídolo castiço (condição geral) se sente hábil para manipular e adulterar extremos de falta de amor próprio e a total ausência de um guia autêntico, que só dos perdidos e dispersos pode-se alimentar. Quanto mais sua falsidade se torna importante para um infausto, mas ostracismo é preciso lhe dar."

" O ídolo é capaz de extremidades pseudo reliogiosas unidirecionais, como sedução narcisista e jactância vampírica*, porque preexiste em sua condição sôfrega um constante estado belicoso e enquieto de afronta a um determinado povo, como para com cada um de seus indivíduos."


"Quanto mais importante se torna um ídolo, mais psicologia é preciso para nos livrar dessa chaga oportunista."

Frase interessantes adaptável e combináveis:

- "Não são as bonecas os ídolos dos pequenos e os ídolos as bonecas dos adultos?" RÉGIS DEBRAY

- "Sonhem, mas eu não sou, no final das contas, mais do que o sucessor do urso de pelúcia de vocês" LUIS MARIANO

- "Criamos o nosso destino ao escolher nossos deuses" VIRGÍLIO (Públio Virgílio Marão)

- "A fábrica de sonho é uma fábrica de alma, uma fábrica de personalidade." EDGAR MORIN

- "Todo mundo gostaria de ser Cary Grant, inclusive Cary Grant!" CARY GRANT

Anônimo disse...

Parte 2

Ôoo aldebariano (ou aldebarã?), você não acha que está alternando os valores aqui, não, intergaláctico?

Mulheres mutilando suas faces no Japão e no mundo oriental, como um todo, porque elas acham que seus olhos e narizes não se parecem com os da branquidão cativa do mundo midiático. Gente, em toda a parte do mundo, com vergonha da cor de sua pele tentando se embranquecer. Ídolos como A. Hitler empurrando gente para o ódio e morte. Atores e atrizes sem valor algum que roubam a nossa imagem, num ato covarde e vampírico, e em troca nos oferecem ideologias baratas e burguesas, sabão em pó e rímel para você "se odiar menos", "because you are worthless" (revista Adbusters, gozando a L'orèal, da frase publicitária infeliz "because you're worth it"). E, claro, temos mais milhares de exemplos que se enquadrariam muito bem aqui. Os ídolos são uma fiel reprensentação das nossas insuficiências imaginárias. E eles sabem disso. E através delas fazem a ceia em proveitode. Vai uma lasanha congelada ou sabão em pó? Quem sabe, uma ideologia gratuita ou corrente de pensamento, aê? Aí está a história e os contos reais sendo esfregados na cara de todos, sustentados pelos mitos de consciência e racionalidade humana. Quem tem que tomar cuidado e ficar em constante estado de alerta, cujas a saúde mental e a vida sadia, benéfica estão seriamente ameaçadas por esses terceiros, são os idólatras. Quem é que tem que tomar cuidado com quem, agora? Ser ídolo é uma piada. Então, por que nós, fãs, deveriamos ter cuidado com isso?!
Vocês é que se cuidem!

- "Venerar um ídolo é o mesmo que consentir o afligimento do íntimo de cada um de nós. Não pela convicção e permissão bilateral simétrica, contudo pelas mãos miméticas que coagem os que ainda acreditam no mito da liberdade humana, que, por sua vez, permite que os mesmos deixem que o ídolo doutrine suas emoções" EU

"Socialização emotiva" é um dos inimigos - a luta entre o relato sedutor dos miseráveis ídolos sociopáticos contra a ação dos despertos! "E viveram felizes para sempre..." --> o veneno do relato. Abram os olhos!

Para desenlace:

"O fã e o ídolo são capazes de extremos de frenesi* e de extremos de egoísmo, porque existe em suas vocações uma fome voraz que infringe os que querem um mundo livre de chagas e impertinências, livre dessas relações autofágas, diminutas e insuficientes. Quanto mais importante a gente se diz ser, mais cuidado se precisa ter conosco."

*( frenesi para medicina: inflamação cerebral; delírio - fonte: priberam)

Bazófia alheia!

2* - assim como as religiões e seus respectivos deuses

1* - não A GENTE, como dito na frase do texto - falas como se todos estivessem propensos a serem candidatos a deificação. Oh!, bem-vindo ao mundo de apoteose e da leprosaria do Olímpio espúrio.


Diogo Scopel