quarta-feira, 3 de março de 2010

1737) Machado: “Capítulo dos Chapéus” (5.10.2008)



(Machado, por Ernani Cousandier)

Sinopse: A esposa faz ao marido uma exigência boba: trocar o velho chapéu que ele usa por um modelo mais de acordo com sua posição social. Ele recusa-se a atender, com aspereza e sarcasmo. Ela fica se roendo de mágoa, mas depois sossega. O marido, surpreendentemente, acaba por atender seu pedido, mas ela lhe pede que volte atrás e deixe tudo como estava.

Ao que me consta é o único conto de Machado que tem no título a expressão “Capítulo”, mas quantos outros poderiam e até deveriam tê-la! (Numa epígrafe, o autor atribui o título a um trecho de Molière.) Porque muitas de suas histórias são isto, pedaços de um romance não-escrito, flagrantes de um momento na vida de uma ou de duas pessoas, durante uma ou duas horas, um ou dois dias. Nada ocorre ali de extraordinário que merecesse registro, mas o turbulir íntimo, as idas e vindas dos sentimentos, são captados com argúcia pelo escritor. Incrustados num romance maior, de arcabouço narrativo mais sólido, seriam excelentes capítulos introspectivos. Soltos, assim, mostram que o autor tinha mais propensão para a dissecação dos estados de espírito no momento presente do que para a articulação de eventos e peripécias ao longo de um tempo mais estendido.

O “Capítulo dos Chapéus” (em Histórias sem Data, 1884) é uma história na terceira pessoa, mas narrada de dentro da protagonista, Mariana. Uma técnica que Machado manobrava melhor que qualquer um. Todo o arrufo do jovem casal é descrito do ponto de vista dela, uma moça sem muito brilho, de beleza discreta e ambições modestas. Machado enumera com sabor suas únicas leituras: “a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoe e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l’Enigme, de Madame Craven, onze vezes”. Em sua primeira briga conjugal ela se vale de Sofia, uma amiga mais bela, mais traquejada e menos honesta. Daí em diante, o diabinho do adultério pousa no ombro de Mariana, cochichando sem parar, embora nem ela o admita nem o narrador toque no assunto.

O saboroso jargão financeiro machadiano descreve a prodigalidade romântica de Sofia, que talvez não traia o marido, mas flerta sem remorsos: “Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miúdo do amor, que ela distribuía a todos os pobres que lhe batiam à porta: um níquel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apólice”. Sofia arrasta Mariana a passeios pela cidade, em que as duas observam os homens e deixam-se observar, mas durante o périplo Mariana percebe que não é feita do mesmo estofo. Tudo que quer é a casinha arrumada, cada coisa no seu lugar, sem inseguranças. Quer uma vida como uma superfície dágua, onde os eventos não deixam marca, onde não é possível encontrar “uma lauda de Voltaire entre as folhas da ‘Moreninha’ ou de ‘Ivanhoe’”. Nunca leremos o romance do que parece acontecer entre Mariana, Conrado e Sofia, mas... O capítulo se sustenta sozinho.

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