quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

1666) A Lei Seca (15.7.2008)



Está aí um dos raros lampejos de sensatez que já brotaram neste Brasil velho de guerra: punir as pessoas que dirigem sob o efeito do álcool. Sou suspeito para falar, porque não sei dirigir e nunca tive carro. Para mim, portanto, não muda nada, porque sempre que tomei umas e outras voltei para casa de táxi, ou a pé, ou trazido por alguém. As únicas vezes em que cometi alguma imprudência automobilística foi quando voltei para casa pegando carona com amigos (e já foram centenas) que tinham bebido tanto quanto eu, e o fato de estar aqui vivo e batucando nas teclas deve-se simplesmente à Deusa Sorte.

A Lei Seca que está vigorando nas últimas semanas tem reduzido a quantidade de acidentes de trânsito e de vítimas. Em algumas capitais, como Niterói, essa redução chegou a mais de 40%. Qualquer um de nós, se indagado de surpresa, consegue lembrar dois ou três casos concretos de amigos ou conhecidos que foram vitimados por bêbados ao volante: atropelados na rua ou na calçada, ou esmagados em colisões absurdas. Porque no trânsito não basta você ser correto, eficiente e prudente para ter certeza de que está seguro. Quando menos espera, um bêbado estúpido corta um sinal a 150 km por hora e espatifa um carro com uma família dentro.

Ouço na TV a previsível lenga-lenga de que isto é uma interferência nas “liberdades individuais”, é “a volta da ditadura” e outras idiotices. Meu amigo, se for assim, o simples fato de existirem regras de trânsito, sinais semafóricos e faixas para pedestres também é uma interferência gigantesca nas liberdades individuais. A Liberdade é, teoricamente, um ponto ótimo de equilíbrio entre Ordem e Caos. Os que protestam contra a Lei Seca não querem a Liberdade. São como garotos mimados que não deixam ninguém ver TV em paz, que jogam no chão o prato do almoço, que se recusam a tomar banho ou a estudar. Isso não é liberdade, é falta de um corretivo.

O brasileiro já demonstrou fartamente que os corretivos mais eficazes em nosso país são os do bolso. Temos mais medo de perder dinheiro do que de ir para a cadeia. Se as multas forem aplicadas pra valer, as mortes no trânsito cairão de forma espantosa. Claro que nem tudo é perfeito, e as piadas se multiplicam. Já se diz que hoje em dia só os guardas de trânsito estão “tomando uma cervejinha”, ou que os acidentes aumentaram porque os bebuns passaram o volante do carro para as mulheres.

O brasileiro tem bom humor, e nunca esse bom humor (e criatividade) foi tão necessário como agora. Bares se oferecem para deixar os clientes em casa; amigos alugam vans para trazê-los do boteco; pessoas que não bebem são dispensadas de colaborar na conta desde que deixem os amigos em casa; casais se revezam no copo e no volante... Soluções não faltam. Educação não é ditadura. Nunca se bebeu tanto neste país, e nunca se matou tanta gente no trânsito. Não custa nada bebermos todos um pouco menos e vivermos todos um pouco mais, inclusive para continuar bebendo.

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