sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

1554) O artista cara-de-pau (6.3.2008)



(Stewart Home)

Pode parecer aqui nesta coluna que eu nutro algum tipo de despeito contra os artistas plásticos pós-modernos, mas não é vero. Tenho muitos amigos nessa área e em geral admiro muito o que produzem. O problema é que depois que alguém teve a idéia de dizer “arte é aquilo que a gente chama de arte”, o mundo artístico começou a bater biela. Vem um cara e manda duzentas cuecas sujas para uma Bienal, depois chega outro e remete uma geladeira vazia para a Documenta, outro inaugura numa galeria uma exposição de hidrantes envoltos em celofane... Enfim, eles fazem lá suas coisas e sempre aparece um crítico fumando piteira e falando em desconstrução, em somatório de léxicos pós-industriais, em pulsões semióticas e o escambau.

Num artigo intitulado “Paint it Black” na revista-livro Strange Attractor n. 3 (www.strangeattractor.com.uk) o artista britânico Stewart Home faz um dos depoimentos mais arrasadores e mais caras-de-pau sobre o mercado da arte. Ele começa assim: “Um dia, na primavera de 1982, eu acordei e decidi que irria ser um artista. Eu tinha 20 anos e achava que arte era qualquer coisa que as pessoas que exercem o poder na Cultura dizem que é arte. Meu entendimento de arte era institucional, e eu acreditava que várias manobras burocráticas eram requeridas para em transformar num artista, em vez da posse de uma qualidade totalmente nebulosa chamava talento”.

Home descreve as numerosas (e bem-humoradas) manobras que realizou para ter obras expostas em galerias ou participando de exposições coletivas. “Eu tinha notado que muitas Histórias da vanguarda eram escritas por pessoas envolvidas no próprio movimento que registravam”, diz ele. Passou a redigir manifestos e mais manifestos que não passavam de paródias de manifestos famosos, e criou movimentos como “Generation Positive” e outros. Um golpe interessante foi quando ele grampeou uma série de folhas-teste de impressoras, com letras e formas aleatórias (usadas para controlar o fluxo de tinta), e passou a vendê-las. A Galeria Tate de Londres comprou um exemplar, e Home passou a colocar no seu currículo a informação (verdadeira) de que “tinha obras adquiridas pela Galeria Tate” – sem explicar do que se tratava.

Home pregou peças em Deus-e-o-mundo, plantando falsas notícias e falsas entrevistas na imprensa. Usou em seu benefício táticas como a da “Greve de Arte”. Diz ele: “Dei minha conferência de despedida em 1989 no I.C.A, e minha conferência de retorno em 1993 no Victoria And Albert Museum, o que mostra que o fato de ter passado esses anos sem fazer nada provavelmente fez mais por mim do que se eu tivesse suado a camisa para produzir obras de arte nesse período”. Stewart Home conclui: “Provei, para minha própria satisfação, que para me tornar um artista reconhecido publicamente bastava saber manipular vários sistemas simbólicos e burocráticos, e não era necessária nenhuma forma de talento ou de treinamento”.

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