domingo, 11 de janeiro de 2009

0740) O filme das ceguinhas (2.8.2005)



Ouvi dizer que o filme das ceguinhas, A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner, bateu recordes de bilheteria nos cinemas de Campina. Nada mais natural. Uns querem ver as ceguinhas, outros querem ver um filme que ganhou vários prêmios, e outros querem ver imagens da cidade, reconhecer na tela pedaços do mundo real: “Eita, lá está a Livraria Pedrosa! Eita, lá está o Edifício Rique! Eita, lá está o Edifício Zé Romero!”

As ceguinhas fazem parte da nossa paisagem urbana desde que me entendo por gente. Sempre estavam em algum ponto do triângulo compreendido entre o Teatro, a Catedral e o Edifício Rique. Quando a gente se aproximava, mesmo antes de vê-las, mesmo à distância, já começava a ouvir seu tríduo de vozes rusticamente harmonizadas, carregadas daquela melancolia milenar de quem pede cantando. Cantavam sextilhas anônimas, pedaços de cocos-de-embolada, sambinhas desconhecidos, valsas que pareciam ter brotado no mundo sem autor. Nunca lhes dei esmola, nunca conversei com elas: parei muitas vezes para escutá-las, mas na verdade foi preciso o