domingo, 21 de junho de 2009

1109) A Razão Deslocada (4.10.2006)



Chamo de “razão deslocada” aqueles comportamentos que parecem racionais e lógicos, mas são inadequados àquela aplicação específica. Para algumas pessoas, basta que um comportamento tenha uma razão de ser (uma única razão de ser) para estar justificado, e ninguém ter que dar explicações. Visto à distância, contudo, este comportamento racional torna-se absurdo, no contexto maior de todos os fatos envolvidos. É aquele célebre exemplo de Bertolt Brecht: “Isto equivale a pintar a parede do camarote de um navio que está indo a pique”.

Uma vez alguém me perguntou por que motivo eu não arrumava os livros da minha estante por ordem alfabética. Expliquei que prefiro arrumar por assunto. Ficção científica nesta prateleira aqui, Arsène Lupin e assuntos nordestinos ali embaixo, cantoria-de-viola e cinema de terror ali à direita... Pode não ter muita lógica, mas tudo que eu procuro eu acho em poucos segundos, é um sistema mais eficaz do que o Google.

Jorge Luís Borges usou certa vez o termo “a desordem alfabética”, que é de uma lucidez cristalina. A ordem alfabética é uma desordem, se considerada, por exemplo, do ponto de vista da cronologia ou da nacionalidade. Todas as vezes que impomos o crivo de um critério, explodimos todos os outros. Um dos casos mais curiosos de coincidência (que de vez em quando me acontece) é ver, numa bibliografia, dois livros sobre o mesmo assunto aparecendo lado a lado porque os seus autores se chamam Hoffmann e Hoffmannstahl, por exemplo.

Razão Deslocada é o caso daquelas pessoas que têm uma inflamaçãozinha de garganta e se entopem de antibióticos, pouco ligando para os efeitos colaterais. É o caso do sujeito que trabalha 15 horas por dia, mas, como está gastando mais do que ganha, resolve fazer hora-extra para equilibrar o orçamento (em vez de gastar menos). É o caso de um sistema de Previdência que, ao perceber milhares de contas fantasmas criadas por seus próprios funcionários, exige que todos os velhinhos do país compareçam pessoalmente ao guichê para provar que existem. É o caso do rei que, ao ouvir falar que nasceu um Messias, manda degolar todos os bebês do reino para preservar o trono.

Qualquer ação pode ser racionalmente justificada, principalmente hoje em dia, quando o uso compulsivo e obrigatório da Razão foi capaz de deslocá-la na direção que mais convém a forças que lhe são opostas, inclusive o Absurdo. Desenvolveram-se em nosso mundo centenas de discursos racionais paralelos, todos auto-justificáveis, e quase todos incompatíveis entre si. Governos, exércitos, corporações e diretorias de clubes de futebol são os exemplos mais notórios do emprego da Razão Deslocada, porque cada um tem sua agenda secreta, cada um tem seus propósitos que não podem ser declarados em público, mas cada um dispõe de equipes teorizadoras e de porta-vozes capazes de justificar, com lógica e racionalidade, qualquer coisa. E estou dizendo Qualquer Coisa, mesmo.

Nenhum comentário: