terça-feira, 16 de setembro de 2008

0551) O Natal de Raymond Chandler (24.12.2004)




O Natal se aproxima, com seu problemático coquetel de confraternizações e melancolias. Depois de uma certa idade, é o Natal que se transforma em nosso verdadeiro Dia de Finados. Por mais que a gente passe assobiando pelo tumular 2 de novembro, quando chega o Natal não tem remédio, a casa (ou pelo menos a memória) se enche de fantasmas. Estavam dormindo em paz nos oceanos do oblívio e lá vai a nossa saudade masoquista a despertá-los, trazê-los de volta à sala de visitas, para o milésimo flash-back dos tempos-felizes-que-não-voltam-mais.

Certa vez comentei aqui (“Uísque: cimento”, 31.7.2003) uma frase de Raymond Chandler que é talvez uma das mais cruéis que já se escreveram sobre esta data: “O Natal se aproxima, trazendo consigo todos os seus horrores ancestrais.” Chandler bem que tinha seus motivos para se arrepiar à simples audição de “Jingle Bells”. Viveu seus últimos dias na Califórnia, aquela mistura de shopping-center e zoológico humano, que provocava náuseas em seu lado aristocrático. Dizia ele: “As lojas estão cheias de um lixo inacreditável, e tudo que você procura já se esgotou. Pessoas com expressões tensas e agoniadas no rosto ficam examinando peças em vidro ou cerâmica, e sendo atendidas, se esta é a express