quinta-feira, 28 de agosto de 2008

0528) O ônibus da Prata (27.11.2004)




(prédio do Correio, foto atual)

O ponto do ônibus da Prata, que nos levava todas as noites para as aulas no “Gigantão” era junto ao prédio do Correio, naquele trecho da calçada hoje cheio de fiteiros e barracas. 

A época a que estou me referindo é 1967, quando comecei o Curso Clássico e entrei para o turno da noite. A aula começava às 19:00, de modo que a partir das 18:30 aquilo já ficava intransitável de tanta gente fardada. 

Me lembro como se fosse hoje da farda das meninas, que era uma blusa branca de manga curtas, com o monograma do colégio bordado em verde, no bolso; as saias eram cáqui, pregueadas, com fitas verdes ao longo da barra, e foi essa a época em que começaram a subir, segundo a lei de Mary Quant, que fez mais pela nossa vida sexual do que Fritz Kahn e o Padre João Mohana juntos.

O ônibus saía do Correio e virava à direita na Getúlio Vargas, descia pela frente do antigo Cine Avenida, virava à esquerda na Nilo Peçanha. O primeiro ponto de descida era na esquina em frente à Igreja do Rosário. Os pontos correspondiam aos três portões de entrada do Colégio, situados ao longo de dois quarteirões inteiros. 

Depois que descarregava os alunos, o ônibus enchia com os que estavam voltando para o centro, e seguia rumo à Rua da Independência, onde virava à esquerda e descia até a Praça do Trabalho, passava em frente ao Cine São José e descia para o balde do Açude Novo. 

Ali, não me lembro se subia a 13 de maio, ou se já virava à esquerda para subir pela Floriano Peixoto até em frente ao Capitólio, onde rodeava a Praça da Bandeira e encerrava a “circular” na calçada do Correio.

O interior do ônibus era uma versão eufórica do caos. A cada curva, todos os corpos masculinos, de acordo com a Lei de Isaac Newton, eram pressionados de encontro aos corpos femininos. Quem estava sentado empilhava no colo bolsas, pastas, pranchetas e livros de quem estava por perto. Descidas e freadas bruscas eram saudadas com gritos de provocação: “Tira o pé do bolso, motorista!” “Motorista, bateram minha carteira!” Havia um motorista chamado Taba Lascada que era alvo permanente de gozação.

Quem sofria muito também era o cobrador. Naquele tempo não havia roleta, o cobrador andava pelo ônibus recebendo o pagamento e dando uma senha como comprovante, senha que ele destacava de um talãozinho que trazia na mão. Era um sistema de controle, convenhamos, fadado a uma rápida extinção, porque ninguém colocava a senha na urnazinha ao sair, e todo mundo brandia uma senha velha: “Oxente, rapaz! Já paguei!” 

O cobrador tinha que se esgueirar entre os corpos de todos, empurrar, meter o cotovelo, firmar-se do melhor jeito possível enquanto recebia o dinheiro e passava troco. Ele pegava as notas, dobrava-as ao meio do sentido do comprimento, e as prendia entre os dedos. Jean-Luc Godard, em viagem ao Rio nos anos 1950, encantou-se com este detalhe nos ônibus cariocas. 

Eu olhava para aquilo sem prestar atenção, achando que ia durar para sempre.





Um comentário:

Unknown disse...

Bráulio, lembro das histórias do teu contemporâneo, Marcos Agra, comentando por diversas vezes como o ônibus andava apinhado de estudantes e o roteiro de maior emoção era na volta para casa, quando em velocidade "virava à esquerda para subir pela Floriano Peixoto até em frente ao Capitólio, onde rodeava a Praça da Bandeira e encerrava a “circular” na calçada do Correio."