sábado, 8 de março de 2008

0107) O dinheiro eletrônico (25.7.2003)





Nos primórdios do terceiro milênio da Era Cristã, acreditava-se em conceitos como País, Nação, etc. 

Vendo um documentário sobre o dinheiro eletrônico, o Capital Virtual, comecei a calcular quantos anos ainda vão durar os atuais Estados e países. 


Foi-se o tempo em que bastava criticar o Materialismo dos burgueses que enricavam fabricando artigos têxteis, extraindo carvão ou plantando cana-de-açúcar. Pelo menos esses produtos serviam para alguma coisa. 


Note-se: não estou fazendo uma crítica moral, uma crítica ética a esse procedimento. Eu próprio, se ganhasse hoje um milhão de dólares, usaria metade para criar uma editora e publicar apenas os livros que me agradam, e a outra metade eu aplicaria na ciranda financeira, para alimentar o ralo-de-esgoto em que uma editora assim se transformaria. 


Vindos de séculos de guerras e de lutas políticas para a unificação de povos sob um mesmo governo, os seres humanos daquele tempo atribuíam a essas entidades uma nitidez (e uma firmeza) que elas estavam longe de possuir.

Quem visse os mapas daquele tempo acreditaria que havia uma linha nítida, ao longo de uma floresta ou de um pântano, demarcando onde acabava o país A e começava o país B. Essa obsessão demarcatória tinha muito pouco a ver com a vida real das pessoas. 


O que me lembra o episódio narrado pelo cordelista Raimundo Santa Helena: “Quando minha mãe teve as dores do parto, foi botada num trólei de estrada de ferro, e levada para a cidade mais próxima. Minha cabeça nasceu na Paraíba, e o resto do corpo no Ceará.”

A conjugação entre computadores, Internet e comércio financeiro vem transferindo as decisões econômicas para grupos que estão muito, muitíssimo acima do poder localizado dos Bancos Centrais. Inventaram a máquina de fabricar dinheiro a partir de dinheiro já existente, sem nenhum lastro produtivo, sem nenhuma correspondência com as riquezas materiais produzidas no país. 

E o diabo é que enquanto a maior parte do dinheiro existente se entrega a essa bacanal proliferatória, o resto do país precisa continuar produzindo as tais riquezas materiais, senão dá no que está dando.

Hoje, a Economia emburacou no reino da Metalinguagem, onde não mais extrai seus lucros do mundo material, e sim do mundo virtual, fictício, do dinheiro eletrônico. Fortunas trocam de mãos, empresas quebram, empresas brotam, países desmoronam (como a Argentina), países enriquecem (como Cingapura)... A riqueza, contudo, não pertence àquele países, que são apenas os hospedeiros, e, enquanto ainda existem, precisam cuidar do lado materialista da vida: estradas, hospitais, escolas, polícia, transportes... 

E o Capital Eletrônico vai ampliando seu Cassino, onde trilhões de dólares virtuais são torrados todos os dias.

Não tenho nada contra ganhar dinheiro. Mas é como dizia a avó de alguém, quando a cabeça endoidece, o corpo é que paga o pato. Só quero ver quando despencar o elevador.






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